Entendendo a Psicossomática
- 26 de mar. de 2021
- 7 min de leitura
Atualizado: 23 de fev. de 2023
Segundo Georg Groddeck, médico, psicanalista, alemão, considerado pioneiro na medicina psicossomática, "só o organismo vivo pode adoecer [...], e, como a vida sempre foi uma misteriosa coexistência do que se convencionou chamar de corpo e alma, separadamente [...], logo se deduz que não há “organismo” e “psiquismo”, nem doenças físicas ou psíquicas, e, sim, que são sempre os dois a enfermar ao mesmo tempo, em quaisquer circunstâncias".
O sofrimento existencial “machuca”.
O Nascimento da Psicossomática

Em 1917, o "pai" da psicossomática, se dá conta de que na verdade, Freud já a havia descoberto quando estudava a Histeria, mas não com tempo hábil para continuar sua investigação, entretanto, o seu legado mostra a observação dos males corporais e psíquicos pelo viés do inconsciente.
A seguir trecho da carta enviada por George Groddeck a Freud, O Nascimento da Psicossomática:
"Aos meus - ou deveria dizer aos seus - conceitos, cheguei não pelo estudo de neuroses mas pela observação de males que se costumam chamar 'corporais'. (...) Não é possível, no desenvolvimento dessas ideias, que, no fundo, são suas, empregar outra nomenclatura que aquela por você estabelecida. Ela não dever ser substituída e é suficiente também para meus propósitos, logo que a noção do inconsciente é alargada" - (George Groddeck, primeira carta a Freud, 27 de maio de 1917)
A Psicossomática e seus conceitos

Na vida cotidiana com tantas problemáticas, a doença no corpo e/ou na mente acontecem de forma a se processar o sofrimento, a dor do afeto, ou do que nos afeta, acontece de forma que é como se a mente não tivesse mais capacidade de elaborar os pensamentos, e o psiquismo por si só não desse conta de resolver aquela dor, e, é como se essa tentativa de elaboração da dor psíquica vazasse para o corpo, e o corpo fosse um parceiro da mente e começasse a tratar a dor psíquica por si, pelo corpo.
Quando o sofrimento vai para o corpo, torna-se muito difícil tratar-se a "vida doente" do sujeito.
Em "Estudos sobre a Histeria" - Freud, 1893-1895, temos:
"Encontramos, com efeito, e para nossa surpresa, que os diferentes sintomas histéricos desapareciam imediata e definitivamente quando se conseguia despertar com toda clareza a recordação do processo provocador, e com ela o afeto concomitante, e descrevia o paciente com o maior detalhe possível tal processo, dando a expressão verbal ao afeto. A recordação desprovida de afeto carece quase sempre de eficácia. O processo psíquico primitivo deve ser repetido o mais vivamente possível, retroagido ao status nascendi, e 'expresso' depois." - Estudos sobre a Histeria (1893 - 1895), 1980, p.43.
"Condição indispensável para a aquisição da histeria é que entre o eu e uma representação a ele afluente surja uma relação de incompatibilidade.
A forma histérica de defesa - para o qual é necessária uma especial capacidade - consiste na conversão da excitação em uma inervação somática, conseguindo-se assim que a representação insuportável fique expulsa da consciência do eu, a qual acolhe, em seu lugar, a reminiscência somática nascida por conversão e padece sob o domínio do afeto, enlaçado com o maior ou menor clareza a tais reminiscências." - Estudos sobre a Histeria (1893 - 1895)
Para a psicossomática psicanalítica, a dor emocional precisa ser manejada enquanto sofrimento emocional, e é preciso investigar-se como e quando este corpo começou a entrar no sofrimento, e, para que haja a "cura", é inevitável que este corpo entre para o trabalho analítico junto com a mente.
A psicossomática, não se trata de nenhuma das outras estruturas psíquicas, mas sim, de um processo de corporalização do conflito. É o Ser inteiro impactado, não só físico e/ou psíquico!
Como a Psicossomática ocorre?
Funciona assim. O sujeito que evidencia o trajeto do sofrimento, do afeto que foi recalcado, e, que foi “retirado brutalmente” da via psíquica, acaba por tentar elaborar esta dor afetiva, tornando-se este um “afeto mudo”, sem fala, no corpo, e é aí que o corpo adoece, para "falar" através da dor. O desconforto acha mais fácil perturbar o próprio corpo, do que representar na mente, que é onde o inconsciente "fala".
Na psicossomática, o retorno do recalcado acontece de forma distinta, e trata-se de um processo de repressão diferente do conceito de recalque da neurose. É a cisão, a retirada do sofrimento do psiquismo para o próprio corpo, com descarga direta para um percurso corporal. É a luta inconsciente do sujeito para omitir da consciência um fato que não foi reprimido, mas sim, expulso. E, para que haja a ressignificação, a dor que agora se demonstra física no corpo, deve retornar para uma elaboração psíquica, em representação simbólica através da "fala".
Qual o tratamento?

Para a psicanálise, a cura do sintoma corporal precisa acontecer pela fala, pois a dor psíquica está convertida no corpo lesionado, e precisa ser decifrada. O psicanalista auxilia o paciente a trazer a sua dor física para a representação simbólica. Esta representação precisa ser interpretada pelo psicanalista, que com o manejo vigilante, devolverá ao paciente de forma decodificada o significado, apostando-se em uma associação livre, para que seja então analisado, ressignificado e vivenciado pelo analisando.
Exemplos de Casos
O seminário clínico com o professor, psicanalista e mestre em psicossomática, Lazslo Ávila, apresentou três casos de doenças psicossomáticas que apareceram em sua clínica.
Doença do Sujeito
Um exemplo clássico de doença psicossomática é a Fibromialgia. É uma doença do sujeito, da sua vida doente, da sua história, e, que responde muito fortemente aos fatores estressantes desta vida em sofrimento, às problemáticas emocionais que estão presentes nas emoções e pensamentos do analisando, e, pelos agravamentos do estresse, do excesso, das pressões, do desgaste das relações, levam à dores crônicas que evidenciam o sofrimento e se refletem principalmente nas articulações do corpo físico deste sujeito.
Para Groddeck, há uma vida orgânica na personalidade, na expressão do sujeito, que é um ser biológico e psicológico, simultaneamente. Sujeito psíquico e corpo biológico. Toda doença é conveniente para o sujeito que aceita a doença e deseja o adoecimento (é algo do “isso”, ou seja, do inconsciente), e que a personalidade atua de uma nova forma, uma nova condição existencial.

"A conclusão a que Freud chega é a de que "toda enfermidade é intencional", e de que para curar os doentes "é preciso primeiramente convencê-los, por meio da análise, da existência de seu propósito de enfermar." Ele aconselha então aos médicos que pesquisem mais frequentemente "os interesses pessoais de seus doentes, que estes costumam ocultar-lhes cuidadosamente", como forma de poder auxiliar a superação de uma doença, compreendendo "o motivo que a fazia útil na vida do sujeito." - (O Caso Dora, p. 957)
A Angústia da Morte

Outro caso é o das reações à angústia de morte na velhice, o ser que está em sofrimento e que manifesta no corpo características que podem ser interpretadas pela terminalidade da vida. É preciso entender e abordar o sofrimento psíquico que está depositado em sintomas somáticos. É necessário pensar no existencial. Perna cansada de quê? Onde o sujeito está investindo sua libido? É possível requalificar o órgão (perna, com caminhar na vida?), para que este se revitalize.
"Particularmente curioso é o comportamento do Isso frente à idade avançada e à proximidade da morte. Ele provoca a presbiotia, a vista cansada, faz com que o olho só enxergue de longe e assim, simbolicamente, empurra tudo para longe, inclusive a morte, prolonga a vida, como também torna mais curtos os passos do idoso, e seu caminho mais longo, com a mesma finalidade ilusória com que encurta seu sono para esticar a duração da vida" - (Groddeck, G. - O Livro d' Isso)
A Miopia

Outro exemplo que podemos abordar como doença psicossomática é a miopia. Quando a lente concentra a luz, ela incide antes, e, não, no fundo do olho. É uma perturbação de função orgânica do olho, que altera o estado natural da visão. Mas, psicossomaticamente, o cristalino é controlado por músculos, que a vista se adapta conforme o movimento. O míope, vê melhor de perto, e, o hipermétrope, enxerga melhor de longe. Em certas circunstâncias, que são psicológicas, a visão pode agir de forma contraditória, quando o sujeito está diante de um fato que “quer ver..., mas não quer ver”, como a de assistir a um acidente e ver uma pessoa morta ou a cena primária na infância. Uma ação contraditória, intensa ou contínua, que deforma a lente visual do sujeito. Cenas ou circunstâncias emocionais que tenham promovido a alteração e trauma significativos.
A Depressão
Como último exemplo, a depressão, que é a perda de vitalidade, das capacidades, um empobrecimento psíquico, e, ajudar o indivíduo em depressão a reconectar-se com as fontes de abastecimento da vida, é a libido, o amor, o vínculo, a partir de Eros. Então, a manifestação da depressão é o empobrecimento de Eros, de investir-se na vida, nos relacionamentos, na solidariedade social, levar para fora, como se estivesse patologizado o próprio Eros. Pulsão de vida e de morte.
O sujeito deve se perguntar por que chamamos males de amor, de dor de cotovelo?
Porque o “EU” está em qualquer lugar, ou em todo lugar do sujeito, e a dor da alma, é também dor do corpo.
Conclusão
Na visão psicanalítica, o tratamento é pela “palavra”, entretanto, deve ser também medicamentoso, porque o corpo também é uma área da mente. Corpo e mente são um só. É o sujeito psicossomático.
Para o psicanalista que se lança a abordar em sua clínica a prática psicossomática psicanalítica, precisa confiar na psicanálise para uma forma de intervenção simbólica, como via eficiente de conhecer o sujeito, a “la Groddeck”, pois este instrumento vai dar ao analista a liberdade de ousar em dizer que, “a ferida na perna está chorando”, o intestino irritado, por estar “cagando” de medo.
A aposta aqui é ser um psicanalista “selvagem”. É dar sentido à vida!!! É praticar a psicossomática sem receio.
Recomendações
Leitura: "Inconsciente e Percepção na Psicanálise Freudiana" - Nelson Ernesto Coelho Junior, Instituto de Psicologia - USP
Netflix: "A Vida em Mim!"
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Luciana De Rosa | Psicanalista
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